CRISE NA SAÚDE
Governo nega impacto, mas corte de quase 30% do efetivo abre déficit na escala, pode fechar bases e diminuir equipes nas ruas
Servidores do Samu denunciam que a redução de 56 profissionais no quadro já provoca um buraco na escala e deve resultar em menos equipes nas ruas em Cuiabá e Várzea Grande, com impacto direto no atendimento de urgência nas duas cidades. A Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso sustenta que o serviço segue estável após a integração com o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso, mas na prática, o funcionamento do sistema depende menos do número de viaturas disponíveis e mais da capacidade de manter equipes completas em cada unidade.
“É justamente nesse ponto que o corte provoca efeito direto. Sem os profissionais desligados, a escala tende a ficar desfalcada já nas primeiras semanas, obrigando a reorganização emergencial das equipes e, na ponta, a escolha de quais ambulâncias deixarão de rodar por falta de pessoal”, diz um funcionário do Samu, que não quis se identificar por temer represália.
A conta interna feita por profissionais do próprio serviço indica que, embora o discurso oficial considere até 20 ambulâncias, o número real em operação deve cair para cerca de 16 unidades entre Cuiabá e Várzea Grande. Isso ocorre porque nem todas as viaturas poderão sair simultaneamente sem equipes completas, o que pode levar inclusive ao fechamento temporário de bases, principalmente nas áreas com menor cobertura operacional.
O impacto mais sensível deve ser sentido em Várzea Grande, onde a tendência é de redução das unidades básicas, com possibilidade de desativação de viaturas, concentrando o atendimento em poucas equipes. Nesse cenário, o município pode ficar com apenas duas ambulâncias em operação regular — uma do Corpo de Bombeiros e uma unidade avançada —, o que amplia o tempo de resposta e sobrecarrega o restante da rede. Em Cuiabá, a previsão é de ao menos três ambulâncias a menos nas ruas, aumentando a pressão sobre as equipes remanescentes e elevando o risco de atraso em atendimentos de urgência.
Outro efeito imediato da redução do efetivo é o remanejamento forçado de profissionais. Para evitar um colapso mais evidente, o Corpo de Bombeiros deve deslocar parte do próprio contingente para cobrir lacunas no Samu, uma solução que, embora mantenha o serviço funcionando, não resolve o déficit estrutural e ainda transfere pressão para outra frente do atendimento de emergência.
Além do impacto operacional imediato, os servidores relatam um ambiente de incerteza dentro do serviço. Segundo eles, há informações de bastidores sobre um possível interesse do Corpo de Bombeiros em assumir a gestão das operações atualmente realizadas pelo Samu, o que tem gerado apreensão entre os profissionais, principalmente pelo risco de descaracterização do modelo de atendimento e mudanças na estrutura já consolidada.
Também há preocupação com possíveis alterações na identidade do serviço e na composição das equipes, o que poderia afetar desde a padronização das ambulâncias até a dinâmica de atuação dos socorristas. Essas propostas, segundo relatos, não avançaram até o momento por conta de possíveis impactos financeiros, especialmente relacionados ao repasse de recursos destinados ao Samu.
Outro ponto sensível é a instabilidade na gestão. Profissionais apontam a possibilidade de mudanças na diretoria em meio ao cenário de desligamentos, justamente no momento em que a equipe tenta manter o funcionamento do serviço diante da redução de pessoal. A avaliação interna é de que esse conjunto de fatores — corte de profissionais, incerteza na gestão e possibilidade de mudanças estruturais — amplia o risco de desorganização do atendimento nas próximas semanas.
Diante desse cenário, os servidores cobram transparência nas decisões e alertam para a necessidade de preservar a estrutura do Samu, tanto do ponto de vista operacional quanto assistencial, para evitar prejuízos à população que depende do serviço em situações de urgência.
A Assembleia Legislativa aprovou a convocação do secretário para prestar esclarecimentos na próxima terça-feira (31), na Comissão de Saúde, Previdência e Assistência Social. A expectativa é que o governo detalhe não apenas o impacto das demissões, mas também esclareça o futuro da gestão do serviço e as possíveis mudanças em curso.












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